terça-feira, 14 de abril de 2009

OLHARES DA VILA, ENCANTO DE FLOR
(Lucas Ávila de Oliveira)

Era um misto de encanto e mistério
Aqueles olhares tristes,
Duetando com o sorriso,
Do formoso rosto moreno,
De menina, flor, mulher...

Arredios, ariscos, perfeitos...
Os seus olhos eram espelhos.
Que ao aprofundar a mirada
Encontraria-se, por certo,
Tudo o que se havia de sonhar...
Assim então, quando chegou,
Causou frenesi nos vileiros,
Não era costume no povo
Se ver tamanha beleza,
Escondida num só encanto,
Num só rosto, num só olhar...

O jeito com que, pelas manhãs,
Mesmo nos dias frios
Saia às caminhadas, pelas ruas da vila,
Perdiam-se nos bailados,
Dos cabelos negros e lisos,
Os que ficavam a admirar.

Ana era dessas moças,
Que trazia o sol no sorriso
E se fosse ainda preciso,
Trazia a lua no olhar,
Ana era dessas meninas
Que queriam o mundo pra seu
Um rancho pra ser descanso,
E um coração pra morar...

Ana, desde menina,
Queria ser como o vento,
Conhecer os campos e povos
Que ouvira falar nos jornais,
Era uma pequena de sonhos,
Às vezes Terra, ou Cambará,
Das missões, flor dos trigais...

Um dia a flor do povoado
Sem razão, informe ou recado,
Parece que não desabrochou.
Como visita rotineira,
De colibri nas corticeiras
Ana, desta vez, não passeou...

Mas todos notaram a presença
De um índio que há pouco chegara,
Num flete, estrela na cara,
Outra estrela no olhar...
Bota garrão-de-potro,
Nazarena, adaga e chiripá,
O índio pealou a donzela
Como fazia "en los pagos de allá".

Pouco disse, mas sabiam,
Pois na voz trazia a essência,
A mais rude descendência
De quem vive pelo mundo,
A domar xucros e donzelas.
Pra deixar esperar nas janelas
Os corações em aperto profundo...

E outras manhãs vieram
Cada uma de diferentes tristezas
Faltava a doce beleza,
Faltava o cheiro da flor.
A vila murchou como fazem
As plantas sem o brilho do sol
Quando contaram que Ana
Fugira com o espanhol.

Ninguém até hoje acredita
Na historia da menina princesa
Que trazia um jeito de indefesa
Mas olhava o mundo de frente,
Ninguém acredita da historia
Que ainda se conta no povo
E mora nos recuerdos da gente.

Ana queria ser como o vento.
E como o vento se foi,
Muitos perguntaram depois
Mas ninguém soube responder
Ana, agora mulher,
Deixou para trás a menina
A morar apenas nas retinas
Dos Sóis de um amanhecer...

***

Dos mais velhos, dos melhores...



Abraços, Don Paysano!

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